Menos é mais
Martha Medeiros
Se não me engano, a máxima “menos é mais” foi criada por um arquiteto alemão, depois popularizou-se através da moda e hoje vale pra tudo, a não ser pra dinheiro (onde menos é muito pouco) e pro sexo (onde mais é muito melhor).
Menos é mais no comportamento: falar rapidamente no telefone, falar pouco da vida dos outros, não ter chiliques porque o apartamento do andar de cima está com uma infiltração, não buzinar pro carro da frente assim que o sinal abre, não brigar com o namorado em voz alta em pleno restaurante, não ser arroz-de-festa, não se ocupar com 10 coisas ao mesmo tempo.
Menos é mais no cinema: menos efeitos especiais, menos bichos falantes, menos duendes, menos inverossimilhanças, menos cachês espetaculares para atores fracos, menos economia com roteiristas.
Menos é mais nas viagens: menos ziguezague por diversas cidades, menos compras, menos bagagem, menos quantidade de gente indo junto.
Menos é mais no amor: menos grude, menos ciúmes, menos cobrança, menos discussão por bobagem, menos pessoas de fora dando palpites, menos idas e vindas intermináveis.
Menos é mais na tevê: minisséries com poucos capítulos, seriados uma vez por semana, Criança Esperança uma vez por ano. E olhe lá.
Menos é mais nos tamanhos: edifícios menos gigantes, hotéis menos impessoais, salas de teatro com menos lugares, restaurantes com menos mesas. Vale até para cidades: exaltamos as grandes metrópoles mas estamos sempre nos mesmos bairros, ou não? Enseadas em vez de praias enormes, escunas em vez de transatlântico, alamedas em vez de grandes calçadões.
Menos é mais nos cumprimentos: dois beijinhos é melhor que três, um beijinho é melhor que dois, um aperto de mão é quase sempre mais educado do que sair beijando quem não se conhece. Mas se você conhece, inclusive biblicamente, um beijo longo vale por mil.
Menos é mais nas críticas (o criticado amanhã pode ganhar um Nobel e casar com sua irmã) e nos elogios (admiração é bem-vinda, puxa-saquismo é o fim). Menos é mais no batismo: menos nome de artista americano, mais João e Maria.
Domingo, 14 de setembro de 2003.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.